Classificação Etária na Literatura Infantil. Como saber se o livro é adequado para a idade da criança?
A classificação na literatura infantil tem a finalidade de orientar os pais e responsáveis no momento da compra em relação à adequação dos livros às fases de desenvolvimento da criança, sua linguagem e a complexidade dos temas.
Mas, como saber se o livro é adequado para a idade da criança?
Quis trazer este assunto aqui para a news do Entre Páginas e Pincéis porque, tanto para os pais e responsáveis quanto para quem produz livros (ilustradores e autores), essa questão sempre está presente. No momento da compra, penso se o livro é adequado, se a criança já passou dessa fase ou se o livro é adiantado demais a ponto de desincentivar a leitura. Quando produzo, penso na linguagem adequada à idade do leitor e se o estilo da ilustração está coerente.
Por isso, decidi pesquisar um pouquinho e trazer aqui para vocês os critérios que ajudam a escolher os livros para cada idade. Durante minha pesquisa, e levando em consideração a minha experiência como mãe de três meninas, percebi que, embora esses critérios sejam muito úteis, não necessariamente devemos nos prender a eles a ponto de privar os filhos (e a nós mesmos) das experiências ricas que podem vir de um livro apenas porque ele não se encaixa perfeitamente em uma ou outra classificação de faixa etária.

Classificação Etária
Essa parte aqui é praticamente um “copia e cola" do que você encontraria por aí se fizesse essa pesquisa por conta própria. Não tem muita criatividade, a informação muda muito pouco de uma fonte para outra. No Brasil, a classificação por idade acontece, em geral, da seguinte forma:
0 a 3 anos
É a faixa que engloba os bebezinhos e pequerruchos que ainda não sabem ler.
São aqueles livros de brincar, os que podem ser levados no banho, os de materiais mais resistentes, tecido ou plástico, feitos para manusear bastante. Têm poucas palavras ou apenas ilustrações, com foco maior nas imagens (coloridas, com texturas, com muito contraste ou em preto e branco). No texto, muita ênfase em rimas, repetições e musicalidade. Têm o objetivo de estimular os sentidos, o vínculo com o adulto e reconhecimento de objetos.
Exemplos: Animais da Fazenda, Uma lagarta muito comilona, A Casa.
3 a 6 anos
É a faixa dos pré-leitores aos leitores Iniciantes.
São livros mais pensados para a leitura compartilhada.
Livros ilustrados com mais texto que a faixa anterior, mas ainda, textos curtos que podem ser rimados e com repetições, sendo que as Ilustrações ainda dominam. Geralmente abordam temas como emoções, coisas do cotidiano das crianças, fantasia e amizade.
Exemplos: Clássicos como O Grúfalo, A árvore Generosa, Palavras, Muitas Palavras, Menina Bonita do Laço de Fita, Perigoso e, é claro, A Misteriosa Caixa da Toupeira.
6 a 8 anos
É a faixa dos leitores iniciantes ou em processo.
São livros para quando a criança começa a ler sozinha. O livros passam a ter mais texto e menos ilustrações, capítulos curtos, histórias com enredo simples, humor, aventuras leves.
O temas geralmente são sobre escola, família, superação de medos.
8 a 12 anos
É faixa dos leitores que já alcançaram a fluência na leitura.
São livros com capítulos um pouco mais longos, com enredos e personagens mais complexos. Os temas abordam amizade, vínculos, mistérios e fantasia.
Exemplos: O Pequeno Príncipe, Matilda, O Jardim Secreto.
12 anos +
É a literatura infanto-juvenil. Toca em temas mais maduros como família, cooperação, relacionamentos, aventura, moral e valores, amadurecimento, questões sociais, já conseguimos tratar de quase tudo.
Exemplos: As Crônicas de Nárnia, Anne de Green Gables, A Ilha Misteriosa.*
Quem determina essa classificação?
A classificação por faixa etária da literatura infantil é mais uma orientação, não é uma lei, nem uma regra. Quem define as faixas são principalmente as editoras, com o intuito de organizar seus catálogos e por razões comerciais. Elas também são influenciadas por especialistas, pesquisadores, associações como a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), curadores de clubes de leitura, além da opinião de pais e professores.
Quais os critérios utilizados para a classificação etária no livros infantis?
Os critérios levam em consideração os estágios de desenvolvimento cognitivo da criança, a aquisição da linguagem e fluência de leitura. Em geral, consideram: temas e conteúdos emocionais, quantidade e estilo das ilustrações, complexidade do texto (que engloba o vocabulário e o comprimento das frases), aspecto físico e formato do livro, complexidade narrativa (trama, número de páginas e capítulos), entre outros.
Como escolher?
Você pode usar essas classificações como base, mas, na minha experiência como mãe, o melhor guia é o interesse da criança, e deixar essas orientações apenas como referência geral.
É claro que devemos guiar nossos filhos nessa fase de formação. Devemos também estar atentos ao que toca o coração de cada um para não perder o timing individual na formação de nossos pequenos leitores. Creio firmemente que a qualidade da leitura ajuda muito para a formação do caráter. Por isso, a primeira e mais importante tarefa é desenvolver o interesse pela leitura. Não entenda isso como uma desculpa para permitir leituras de péssima qualidade apenas pelo interesse, mas sim como um lembrete para evitar a rigidez excessiva e exigir somente literatura de alto nível.
Acredito que cada criança tem seu ritmo e seu caminhos para se tornar uma leitora de clássicos (acho que é o sonho de toda mãe que gosta de literatura). O ideal é um equilíbrio saudável entre a leitura recreativa (que desperta do interesse) e a leitura que desejamos oferecer.
Curiosidade Histórica
Uma das primeiras pessoas no Brasil a propor divisões na classificação da literatura infantil foi o educador e pedagogo Manuel Bergström Lourenço Filho.
Lourenço Filho foi professor, escritor e psicólogo educacional. Filho de imigrantes (pai português, mãe sueca), nasceu em 1897, em Porto Ferreira (SP), e faleceu em 1970, no Rio de Janeiro. Autodidata, tinha paixão pela leitura desde criança.
O contexto do Brasil na época em que ele nasceu era de uma educação que era privilégio de poucos, pois o sistema escolar estava ao alcance de uma minoria. Cada estado cuidava da educação separadamente, o que na época gerava uma grande diferença no avanço em cada local. Havia escassez de escolas e falta de formação específica de professores.
Foi um grande reformador do ensino brasileiro, atuou em diferentes governos. Ocupou cargos como diretor do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), organizou reformas educacionais em São Paulo e no Ceará, fundou a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos e participou da elaboração da primeira LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). Coordenou campanhas nacionais de alfabetização de adultos nas décadas de 1940 e 1950. Acreditava que a educação trazia consigo a promessa do progresso do país.
Foi precursor da psicopedagogia, defendia a integração entre psicologia e educação e aplicava testes para avaliar a maturidade para a escrita e leitura. Desenvolveu cartilhas de alfabetização: pregava métodos centrados na criança (em vez do professor),com estímulo à criatividade, aprendizagem por experiência e educação que alcançasse a todos.
Lourenço Filho foi um dos primeiros a estudar e sistematizar a literatura infantil no Brasil. Ele revisou textos, orientou autores e escreveu sobre o tema, via a literatura infantil como uma poderosa ferramenta educativa e defendia que devia ter qualidade literária, não apenas uma moral explícita. Por tudo isso, teve um grande impacto na formação de professores, na produção de materiais pedagógicos e em especial, na valorização da literatura infantil como campo de estudo.
Em um texto entitulado “Como aperfeiçoar a literatura infantil”, escrito em 1943, ele propôs uma das primeiras classificações por faixa etária, que influenciou editoras e escolas por décadas no Brasil.
Divagações sobre a educação brasileira
A contribuição de Lourenço Filho, sem dúvida, mudou muito a educação brasileira, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação. No entanto, não posso deixar de refletir sobre a centralização da educação pelos governos.
Apesar de ter muitas vantagens (como uma maior equidade na qualidade da educação entre os diferentes territórios, especialmente em um país continental como o nosso), um padrão mínimo nacional ajuda no controle de qualidade. Por outro lado, existe uma grande preocupação com o que um governo autoritário seria capaz de fazer com essa ferramenta em mãos, além do risco de transformar o professor em um mero executor, o que pode tirar sua autonomia e desmotivar o magistério.
Apenas para fins de reflexão (pois não me sinto apta para opinar em questões tão profundas), coloco aqui a o contraponto de países mais desenvolvidos que não aplicam o sistema de centralização. A Finlândia, por exemplo, considerada um dos países com o melhor sistema educacional do mundo, possui um currículo nacional, mas é altamente descentralizada. Investe pesadamente na formação de professores, é extremamente exigente e seletiva, (é obrigatório ter mestrado para lecionar) e concede grande autonomia aos docentes. Além de outras características, com professores bem formados, o aprendizado torna-se mais profundo e eficiente.
O Brasil teoricamente tem um sistema híbrido. O governo federal tem um alto poder sobre o currículo nacional, diretrizes, campanhas de educação e avaliação. Estados e municípios podem adaptar o currículo às suas realidades, escolher materiais didáticos complementares, gerir parte da formação dos professores e organizar projetos e o dia a dia escolar. É uma tentativa de combinar um padrão nacional com certa flexibilidade regional.
Como na vida nada se cria, tudo se copia (ou recria), acho que vale a pena estarmos atentos aos movimentos da educação em nosso país e valorizar aqueles que buscam os melhores modelos internacionais como referência de desenvolvimento.
E nós, como pais e responsáveis, temos a obrigação de fazer a nossa parte: despertar nos nossos filhos o amor pelo aprimoramento pessoal, pelo estudo como forma de autodesenvolvimento e garantir que tenham acesso ao melhor que a literatura pode oferecer na formação dos futuros adultos que eles serão.
Obrigada por me acompanhar nessa leitura!
Literatura infantil é coisa séria.
Qual a sua opinião sobre esse assunto? Me conta nos comentários.
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