Bem e o Mal na literatura infantil (e na vida).
Por que os vilões estão desaparecendo das histórias (e filmes) infantis?
O lobo não é tão malvado, é um coitadinho que sofreu bullying, agora é o porco que é mau. A rainha má da Bela adormecida é mal compreendida, coitada.
Existe um movimento invisível 🫥 que retira o mal das histórias, um excesso de moralismo e de politicamente correto. Isso é muito perigoso pois no mundo real o mau ainda existe.
Antes de entrar nas historinhas vamos falar do mundo real.
Não há como negar que o mau exista. O que vemos acontecendo é um grande movimento que se nega a admitir que haja um critério objetivo para definir o que é bem e o que é mal. Observe a tendência de relativizar crimes, tirando-lhes o peso dos atos cometidos, justificando-os pelas circunstâncias, pelos fins alcançados ou pelo meio daquele que os comete. Vemos isso acontecendo em todas as esferas da sociedade: desde o cidadão comum até os políticos e nas celebridades.
Esse mesmo movimento vem acontecendo na ficção. Basta observar como surgiram livros infantis e filmes que transformaram vilões icônicos, personagens consolidados no imaginário de gerações, em criaturas a quem devemos ter empatia e compreensão, porque foram mal compreendidos ou porque sofreram abusos ou crueldades antes de escolherem pelo mau. Como se não fosse possível ter um passado de sofrimentos e, ainda assim, escolher pelas boas atitudes e intenções.

“É justo que muito custe o que muito vale”.*
* Santa Teresa D’Ávila
Na maioria das vezes, as más escolhas não exigem grande esforço, pois são influenciadas pelo instinto, pela vontade agradar a si mesmo, para suprir uma necessidade ou um capricho, sem se importar com mais nada.
Já o bem pode custar, muitas vezes exige sacrifícios e autodoação, que são as marcas dos santos e dos heróis tanto da vida real quanto da ficção. Por isso não basta apenas ensinar a distinguir o que é bom e o que é mau, temos que ensinar nossos filhos a lutar contra a própria vontade e contra o próprio instinto quando isso for necessário para alcançar o bem ou evitar um mal.
O uso da razão
Diferentemente de qualquer animal, temos a capacidade de distinguir e compreender e, principalmente, a liberdade de escolher como agir. O ser humano busca pelo bem e evita o mal, é uma lei moral que ressoa na consciência humana desde os primórdios.
Se existe essa lei moral, então por que é que existem pessoas más?
Acontece que, aqueles que escolhem pelo mal, o fazem para buscar um bem para si mesmos em detrimento do outro. Percebe? Buscam um bem, não necessariamente da mesma forma que eu ou você. Eles invertem o valor das coisas.
Inversão de valores
Os atos ruins não são sempre explícitos, como é um homicídio, uma difamação ou um bullying. Atitudes más podem se esconder e se travestir de bons atos quando trocam os fins pelos meios (fazer um ato bom com um objetivo ruim), quando consideram pessoas como meios em vista de um fim. Por exemplo: uma pessoa que se esforça muito em agradar e ajudar os outros, que está sempre disponível para todos, apenas para que possa dominá-los, influenciá-los e usá-los para alcançar seus próprios objetivos ou sua vanglória. Todos conhecemos alguém assim.
Atos verdadeiramente bons são bons em si mesmos (objeto), no fim que pretendem alcançar (intenção) e nas circunstâncias em que acontecem (pressões sociais, necessidade, ambiente). Atos bons respeitam a dignidade das pessoas e de si mesmo.
Onde entram os livros infantis nessa história?
Como responsáveis, devemos educar nossos filhos sobre o mundo em que vivem para que estejam minimamente preparados para as realidades que possam vir a enfrentar. Claro que não conseguiremos prepará-los para tudo, mas ainda que sejam inocentes, não sejam ingênuos, que saibam reconhecer o mal quando se depararem com ele. Também devemos educá-los nas nas virtudes que os levarão a fazer boas escolhas, pois o que mais queremos é que sejam pessoas boas e saibam se proteger daquelas realidades das quais os protegemos na infância, mas que inevitavelmente descobrirão na vida adulta.
Pode parecer esmagador pensar em ensinar coisas tão profundas como: não subordinar as necessidades externas e instintivas às interiores e espirituais; que a convivência humana tem uma realidade espiritual; que temos direitos e deveres; e que devemos aspirar por um bem comum orientados por valores.
É aí que os livros entram. O livro infantil (não só os infantis) alcança temas que não temos ocasião de mostrar com nossos próprios testemunhos ou com experiências próprias da criança.
Eles são grandes aliados das famílias, pois nos permitem tocar em assuntos e temas difíceis ou sensíveis, abrir caminho para conversas mais profundas, encontrar amparo para um momento difícil e mostrar realidades que não fazem parte do nosso dia a dia. Mesmo que não pareça, as crianças adquirem repertório com as experiências vividas pelos personagens e aprendem com elas. Cabe a nós acompanhar, direcionar a conversa, fazer perguntas que levem à reflexão e mostrar as consequências.
Por isso, para que seus filhos tenham bons critérios para escolher as pessoas com quem conviverão, de quem se aproximar e de quem se afastar, quem querem se tornar e que aprendam eles mesmos a escolher o bem: ofereça a eles bons livros. E não apenas isso, sejam vocês mesmos a melhor propaganda do que é uma vida orientada por virtudes e valores.
Eles com certeza aprenderão que ceder ao mal é covardia e que resistir pelo bem é heróico.

Qual o papel dos vilões nas histórias infantis?
Eles são como uma vacina, mostram para a criança que o mal existe no mundo e as prepara para enfrentá-lo. O vilão tem um papel educativo: ele é o antagonista, mostra as motivações que levam à maldade e as atitudes relacionadas a esses personagens. Com isso, as virtudes e os princípios do herói são exaltados. A criança é exposta de forma segura ao bem e ao mal, o que ajuda a processar informações e ensinamentos, entender melhor as dinâmicas do mundo, enriquecer seu repertório e se preparar para crescer.
Poupar a criança desse conteúdo é fragilizá-la.
Como tratar o assunto em cada idade?
Crianças pequenas (até uns 7 ou 8 anos) têm pensamento mais concreto e não entendem bem as nuances do comportamento humano. Procure livros que demonstrem o bem e o mal de forma simples e muito clara, não deve haver espaço para dúvida. É bom que o bem sempre vença e o mal seja derrotado. Contos clássicos como João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos têm o bem e o mal bem demarcados. Outros que tratam sobre as escolhas: A Árvore Generosa e Onde Vivem os Monstros.
Já os maiorzinhos (de 9 a 13 anos, conforme a maturidade) começam a lidar melhor com abstrações, temas contraditórios e ambíguos. Podem pensar em hipóteses, regras e autoridade. Podemos introduzir livros que mostrem que o mal nem sempre é óbvio, explorar temas como bullying, dilemas morais (adequados para a idade), escolhas difíceis e sofrimentos humanos (guerras, fome, injustiças). Pode haver reflexão sobre o porquê de alguém praticar o mal, sem relativizá-lo, pois o mal não deixa de ser mal. Escolha livros mais complexos como A Fantástica Fábrica de Chocolates, Matilda, Desventuras em Série, Percy Jackson e Harry Potter.
Estou construindo uma lista bem legal de indicações de livros aqui: para os menores e para os maiorzinhos!
Para que a leitura frutifique, leve a conversa para a vida diária, relacione com situações da escola, pergunte o que a criança entendeu, diga o que você pensa e, principalmente, ensine mais pelas atitudes do que pelas palavras.
Também é importante falar que pessoas boas também cometem erros e que eles podem ser consertados. Ninguém se torna uma pessoa má apenas por cometer alguns erros, mas por cometê-los repetidamente por escolha própria e consciente. E que não somos responsáveis por consertar pessoas, seus erros e maldades.
Para você, adulto que me lê, se quiser aprofundar o assunto, recomendo a leitura de A Abolição do Homem, de C. S. Lewis.
Literatura infantil é coisa séria.
Qual a sua opinião sobre esse assunto? Me conta nos comentários.
Obrigada por me acompanhar nesta leitura!



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